Imperativo da transparência
- Ana Erthal

- 2 de jul. de 2020
- 2 min de leitura
A campanha #StopHateForProfit, organizada pela NAACP e Sleeping Giants, que começou ontem e vai durar um mês, pressiona os sites de redes sociais para atenção e combate aos discursos de ódio. O boicote à publicidade no Facebook conta com a adesão de marcas poderosas dos EUA e algumas pausaram os gastos por um mês, outras pelo resto da vida: um ano.
São muitos os questionamentos sobre a motivação do boicote, inclusive, se ele serve de escudo para a limitação orçamentária das grandes empresas devido à crise econômica decorrente da pandemia. Outros dizem que os gigantes do comércio que aderiram ao protesto são apenas uma fração da receita do FB impulsionada por uma longa cauda de pequenas empresas que postam anúncios.
O fato é que as coisas estão mudando.
Em 2013, Dave Eggers espelhava um futuro próximo em seu romance "O Círculo", em que todas as pessoas portavam micro-câmeras que mostravam suas atividades 24/7, com alguns poucos momentos de privacidade. No livro, as palavras de ordem são "privacidade é roubo; segredos são mentiras; compartilhar é cuidar". A quantidade de avaliações que fazemos nas plataformas de serviços e nos apps de compras, e a qualidade da exposição da vida cotidiana em lives e stories sugerem que Eggers não estava muito errado. Estamos nos tornando "transparentes", em rastros de dados e em narrativas.
Esse movimento impulsiona as marcas, que deverão ser cada vez mais transparentes em defesa das causas a que se conectam em diversos graus de interesses: comerciais, institucionais, identitários. E as mídias deverão seguir o imperativo da transparência, vide o impacto inegável da campanha #StopHateForProfit. Zuckerberg já anunciou medidas para proteção de grupos vulneráveis ao discurso de ódio, o Youtube vem banindo comentaristas de extrema direita, o Twitch suspendeu a conta de Donald Trump e o Reddit encerrou fóruns em repressão a conteúdo prejudicial.
Um julgamento à priori seria leviano, mas está claro o poder dos anunciantes em influenciar o cenário digital (numa lógica antiga como a do jornalismo industrial) na pressão pela defesa da transparência e em conexão com os desejos humanos.





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Acompanhei essa campanha de perto e dá pra sentir que não é só marketing: a pressão dos anunciantes realmente mexe com as plataformas e força alguma mudança. Como usuário, fico pensando em como estamos sempre “dirigindo” nesse ambiente digital, tentando não sair da pista entre transparência e manipulação — meio como no Drift Boss, onde qualquer deslize custa caro. No fim, parece que marcas e pessoas estão sendo obrigadas a assumir mais claramente de que lado estão.
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