Todos os sentidos do Rio de Janeiro


Profa. Ana Erthal


Toda as cidades possuem características específicas que as tornam mais ou menos notáveis, mais ou menos belas, mais ou menos amadas.

São essas características que criam nossos vínculos de memória com as cidades em que nascemos, crescemos, vivemos, trabalhamos, moramos por um tempo ou apenas visitamos.


Eu sou uma paulista que escolheu ser carioca. Decidi isso aos oito anos de idade quando vi uma foto do Rio à noite, tirada por um satélite a oito quilômetros de distância da Terra. Eu amo São Paulo. Mas aprendi a gostar do Rio tanto quanto, depois de estar aqui em mesma quantidade de anos que em Sampa.


O Rio é a cidade maravilha do Brasil. É ela que aparece nos posters que vendem nosso país em todos os lugares do mundo: a praia de Copacabana, o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar. Está eternizada em muitas canções de todos os gêneros musicais, em grandes cantores que amavam a cidade e suas peculiaridades. Foi capital do país por 200 anos. Foi cidade modelo para arquitetura e urbanismo e ainda hoje é referência em maneirismos, modas e vanguardismos.


No nosso dia-a-dia, a cidade desaparece entre nossos afazeres, nosso cotidiano apressado e ao qual não dedicamos muita atenção porque os chamamentos de nossa tela desviam nosso olhar para as belezas naturais cariocas. Fica invisível às vezes, “centro de nossas desatenções”, como diz Antônio Torres[1]. Não percebemos muito bem as cores, as formas, os barulhos que nos atravessam, os odores que nos invadem. O cheiro e o som da cidade nos assediam o tempo todo, mas criamos mecanismos para reduzi-los e mantemos o compasso dos nossos compromissos.


Para mim, que pesquiso a comunicação sensorial e os sentindo, há mais de 10 anos, nada passa sem atenção. Pensando nisso, e em como os estímulos sensoriais nos atravessam no ambiente, como uma legítima carioca, propus uma pesquisa a cRio (Think Tank da ESPM) para um levantamento desses afetos nesse período em que estamos obrigatoriamente confinados para nosso próprio bem.


Do que poderemos sentir falta” é a pesquisa que apresenta os favoritismos sensoriais entre os cariocas, realizada entre 11 e 21 de abril com apoio da Professora Dra. Karine Karam. O questionário online foi respondido por 403 pessoas, resultando em uma margem de confiabilidade de 95% para populações de número infinito.

A pesquisa revelou exatamente a afeição que o carioca tem pela cidade em que mora, estuda e trabalha. Para C. S. Lewis[2], afeição é um “amor-dádiva”, um aconchego caloroso, a satisfação de estar juntos, não tem barreiras sociais ou de idade, não procura impressionar, não pede nada em troca e só deseja o bem, qualquer que seja a fonte desse bem. Na pesquisa esse afeto se revela quando a maioria das pessoas diz amar a cidade, compreender suas diferenças e reconhecer seu patrimônio e legado histórico.


Depois, para cada um dos sentidos que foi suscitado (visão, audição, tato, paladar e olfato), os cariocas marcaram as intensidades de quanto seriam falta de marcas registradas do Rio, como o verde abundante na área urbana (62%), de sentir o mar e a areia da praia nos pés, o chope gelado com amigos (46%), a água de coco (32%), o pastel da feira (29%) e muitos outros elementos.


Sobre o que estão sentindo falta de ver, os cariocas assinalaram 45% do “movimento alegre dos bares” e 39% “do vai-e-vem das pessoas”. Em contrapartida, e como inspiração para nosso retorno à vida pós-covid, 28% não sentiram falta do “movimento dos carros nas ruas”.


Em relação ao que escutam, 34% sentem falta do “barulho das ondas do mar”; 27% do “grito de gol aos domingos”. Mais da metade dos respondentes disseram não sentir falta das “buzinas e motores de carros” e das “turbinas de aviões”.


Tomar vinho com os amigos (44%) aparece logo depois do chope gelado (46%), quando a questão é o paladar. Ainda temos os cariocas que sentem falta do “café na padaria” (43%) e o “sorvete na rua” (31%) e o “mate na praia” (31%).


Em pólos distantes de saudades 84% sentem falta do “abraço dos amigos e parentes”; 69% do “afago das mãos de pais e avós” e 48% “do aperto de mãos”. Mas 49% não sentem nenhuma falta de aglomerações e do contato em transportes públicos.

Por fim, o sentido do olfato, que desperta mais rapidamente nossas memórias, teve como indicadores: 52% sentem falta do “aroma do pão da padaria”, 42% do “cheiro de chuva (petricor)”, 41% do “aroma da pipoca no cinema” e 38% “da maresia”. Por outro lado, 76% não sentirão falta do odor de escapamento de carros, e 58% não querem nem lembrar do odor ácido do centro da cidade.


Minha avó sempre dizia que só damos valor às coisas quando as perdemos, mas, sobretudo quando as recuperamos. Essa “fome sensorial” que estamos sentindo pode ser um momento de refletir sobre tudo o que o Rio nos oferece todos os dias, e que, sem perceber, perdemos por estarmos ocupados demais. Quem sabe aprenderemos a dar mais valor à cidade maravilhosa?


Para saber mais informações sobre a pesquisa, acesse o site CRIO


Prof. Dra. Ana Erthal Especialista em Comunicação Sensorial.

[1] Torres, A. O Centro de nossas desatenções. Rio de Janeiro: Record, 2015 [2] Lewis, C. S. Os quatro amores. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017.

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